Demência pode ser prevenida em quase metade dos casos, mas Brasil concentra combinação preocupante de fatores de risco, revela estudo
Pesquisa analisou mais de 214 mil pessoas em 14 países e conclui que baixa escolaridade, hipertensão e tabagismo continuam entre as maiores ameaças ao envelhecimento saudável. Brasil aparece entre os países com maior acúmulo simultâneo de fatores...

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O avanço da demência, uma das principais causas de incapacidade e dependência entre idosos em todo o mundo, deixou de ser encarado apenas como consequência inevitável do envelhecimento. Um amplo estudo internacional publicado na revista The Lancet Healthy Longevity demonstra que uma parcela significativa dos casos pode ser evitada por meio de políticas públicas voltadas à educação, prevenção de doenças cardiovasculares e promoção de hábitos saudáveis. A pesquisa também revela um dado preocupante para o Brasil: o país figura entre aqueles com maior concentração simultânea de fatores de risco para o desenvolvimento da doença.
O trabalho reúne dados harmonizados de 214.251 pessoas com 50 anos ou mais, provenientes de 14 países e regiões, incluindo Brasil, Estados Unidos, China, Índia, México, Coreia do Sul e diferentes regiões da Europa. A investigação foi liderada pela epidemiologista Emma Nichols, da University of Southern California (USC), em parceria com pesquisadores da Brown University, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e outras instituições internacionais.
Os cientistas analisaram doze fatores de risco considerados modificáveis para a demência: baixa escolaridade, perda auditiva, colesterol elevado, depressão, sedentarismo, diabetes, tabagismo, hipertensão, obesidade, consumo excessivo de álcool, isolamento social e perda da visão. Segundo os autores, conhecer como esses fatores se distribuem em diferentes sociedades é essencial para desenvolver políticas públicas mais eficientes e adaptadas à realidade de cada país.
O estudo reforça conclusões recentes da Comissão Lancet sobre Demência, segundo a qual cerca de 45% dos casos da doença estão associados a fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida, indicando que milhões de casos poderiam ser adiados ou evitados por meio de intervenções preventivas.

Figura 1. Mapa de calor da prevalência de fatores de risco em diferentes países e regiões.
A ordenação geral dos fatores de risco baseia-se na sua prevalência média em diferentes contextos. As cores representam a classificação dentro de cada país, proporcional ao número de fatores de risco disponíveis em cada um. Para este estudo, consideramos como baixa escolaridade a escolaridade abaixo do ensino secundário. A atividade física foi quantificada utilizando o Índice de Pontuação de Lazer.
Brasil preocupa pelo acúmulo de riscos
Embora países de renda alta apresentem maior prevalência de obesidade e colesterol elevado, o Brasil aparece em uma posição particularmente delicada por concentrar vários fatores de risco ao mesmo tempo.
Os dados mostram que 49% dos brasileiros com mais de 50 anos apresentam hipertensão, 30,7% convivem com obesidade, 49,6% relatam problemas de visão, 26% apresentam sintomas depressivos e 76,4% possuem baixa escolaridade, indicador historicamente associado ao aumento da vulnerabilidade cognitiva ao longo da vida.
Mais preocupante do que cada fator isoladamente é sua combinação. Segundo os pesquisadores, o Brasil ocupa uma das primeiras posições mundiais em carga simultânea de fatores de risco, ficando atrás apenas do México. Em média, os brasileiros acumulam cerca de 34% dos fatores avaliados, resultado que evidencia um ambiente propício ao desenvolvimento futuro da demência.
Os autores destacam que mais da metade da população analisada possuía pelo menos dois fatores de risco ao mesmo tempo e que, em onze dos quatorze países avaliados, mais de 20% dos participantes conviviam com quatro ou mais fatores simultaneamente.
Educação aparece como principal proteção
Um dos resultados mais expressivos da pesquisa é o peso da escolaridade. Em países de renda média e baixa, a baixa educação figura como o fator de risco mais frequente, sugerindo que investimentos em educação produzem efeitos que extrapolam o mercado de trabalho e alcançam diretamente a saúde cerebral décadas depois.
Os pesquisadores observam que a baixa escolaridade pode influenciar outros fatores de risco, reduzindo o acesso à informação, aos serviços de saúde e à prevenção de doenças cardiovasculares, além de limitar oportunidades de participação social e estimulação cognitiva ao longo da vida.
Essa conclusão dialoga com o conceito de "reserva cognitiva", desenvolvido ao longo das últimas décadas pela neurociência, segundo o qual maior escolaridade e estímulo intelectual tornam o cérebro mais resistente aos processos degenerativos associados à idade.
Uma doença moldada pelas desigualdades
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é que os fatores de risco não resultam apenas de escolhas individuais. Idade, gênero, escolaridade e condições socioeconômicas influenciam profundamente a exposição das pessoas às doenças que favorecem a demência.
Segundo os autores, combater desigualdades sociais pode produzir efeitos indiretos importantes sobre a incidência futura da doença. A pesquisa afirma que pobreza, baixa escolarização e dificuldades de acesso aos sistemas de saúde ajudam a explicar diferenças observadas entre países desenvolvidos e economias emergentes.
Os resultados também mostram diferenças entre homens e mulheres. Em praticamente todos os países, depressão e isolamento social foram mais frequentes entre mulheres, enquanto tabagismo e consumo excessivo de álcool permaneceram mais comuns entre homens em países de renda média e baixa.
Na interpretação dos pesquisadores, não existe uma solução única para todos os países. Estratégias nacionais precisam considerar características econômicas, culturais e demográficas específicas.
Ao mesmo tempo, o estudo identifica padrões comuns. Hipertensão, doenças cardiovasculares, tabagismo e obesidade costumam aparecer associados, formando grupos de fatores que poderiam ser enfrentados por programas integrados de prevenção em vez de ações isoladas.
Os autores afirmam que políticas públicas focadas apenas na orientação individual tendem a produzir resultados limitados. Para eles, mudanças estruturais — como ampliação do acesso à educação, fortalecimento da atenção primária, controle dos fatores cardiovasculares, incentivo à atividade física e redução das desigualdades — podem gerar impacto populacional muito mais expressivo e reduzir custos futuros para os sistemas de saúde.
O envelhecimento acelerado da população brasileira torna essas conclusões ainda mais relevantes. O país caminha para registrar, nas próximas décadas, um crescimento expressivo do número de idosos, ampliando também a incidência das doenças neurodegenerativas.
A principal mensagem deixada pelo estudo é clara: embora a demência continue sendo um dos maiores desafios da saúde pública mundial, ela não deve ser tratada como um destino inevitável. A prevenção começa muito antes dos primeiros sintomas e depende menos de avanços tecnológicos isolados do que de investimentos contínuos em educação, redução das desigualdades e promoção da saúde ao longo de toda a vida. É nessa combinação de políticas sociais e sanitárias que os pesquisadores enxergam a melhor oportunidade para conter uma epidemia silenciosa que acompanha o envelhecimento da população mundial.
Referência
Diferenças na prevalência e nos padrões dos fatores de risco para demência em 14 países e regiões: uma análise transnacional harmonizada.
The Lancet Longevidade SaudávelPublicado em: 12 de julho de 2026. Emma Nichols, Zachary J Kunicki, Michael Markot, Drystan Phillips, Jenny Wilkens, Alden L Grosse outros. DOI: 10.1016/j.lanhl.2026.100867